Uma explosão de sentimentos

Guto Maia*

 

O céu é o limite.
Pedro Rosengarten no Parque das Perdizes. São PauloO céu é o limite. Pedro Rosengarten no Parque das Perdizes. São Paulo08/09/2020 (Read in English)


A pandemia, criada pelo homem em desarmonia com a natureza, trouxe paradoxos inimagináveis para os pensadores contemporâneos, que só conseguirão digerir o que está acontecendo aos poucos.

As primeiras consequências visíveis são as sociais.

Verdades sobre as rupturas expostas:

. a corrupção humana é algo inerente e acima de qualquer suspeita;
. assim como o preconceito: a minha turma sempre será melhor que a sua;
. o meu Deus é muito melhor que o seu;
. a solidariedade existe muito mais do que se imaginava, o egoísmo também;
. pode-se perfeitamente sobreviver com menos do que pensávamos;
. a grande maioria quer e prefere viver, seja de que forma for, também ficou óbvio;
. a grande maioria prefere e precisa do dinheiro, seja por quais motivos forem, também ficou óbvio;
. os corajosos quixoteanos negacionistas parecem patéticos nos seus arroubos de enfrentamento aos moinhos invisíveis;
. precisamos de menos gente pra ser feliz do que imaginávamos;
. podemos usar menos coisas do que usávamos;
. aproveitamos para descartar tudo o que era supérfluo na nossa vida, desde roupas até pessoas;
. saudade, uma palavra exclusivamente brasileira, deixou de existir, graças à chamada de vídeo;
. as principais características do brasileiro: abraçar, beijar, apertar mãos e outras partes; espremer-se e sobretudo fabricar aglomerações, ficaram mundialmente proibidas e tornaram-se risco de vida, especialmente por causa da pouca importância que alguns brasileiros dão para o vírus;

Hoje, 8 de setembro de 2020, constatamos que quanto menos um indivíduo precisa do outro, mais a tecnologia mostra-se competente para suprir a lacuna da ausência física.

O calor humano (outra antiga característica brasileira) é algo tomado à distância, pelos aparelhinhos de medir febre.

Seremos, no futuro, uma constelação de ilhas virtuais mascaradas? Ou já somos?

Precisamos, na verdade, pensar e planejar uma realidade melhor para o futuro, pois a atual assusta. E não adianta apenas brigar “corajosamente” contra o que está posto, pois o inimigo real é invisível.

Usando da ironia bem brasileira, podemos ligar o “ferre-se!”; ou usar uma adaptação: “ferrou, sorria. Mesmo de máscara!”

Conclusão: Nos tornamos um grande neologismo, uma metáfora de um novo ser que não conseguimos aceitar nem nos reconhecemos nele. Não vemos ninguém seguro do seu próprio futuro.

Constatamos que todo ser urbano mediano está tenso. Mesmo os pacatos cidadãos do interior nas cidades tranquilas de outrora, tornaram-se mais sensíveis e fragilizados emocionalmente.

Assustam-se à toa com qualquer explosãozinha ou tiroteiozinho no meio da madrugada, principalmente sabendo que as balas são de fuzil.

Tempos imprevisíveis.

 

*Guto Maia - José Augusto Maia Baptista
Gestor educacional
 
 
 

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