Pensar não ocupa espaço 

Guto Maia*

21/08/2020 (Read in English)

Uma reflexão na Semana da Pessoa com Deficiência.

Pensar não ocupa espaço, mas ocupa a mente e desgasta quando nos assombram os fantasmas da existência humana.

O ócio criativo do pensar, leva a criatura a criações mirabolantes e geniais, mas quando não se pode pôr em prática essas "loucuras do pensamento" -, o ato de pensar, por óbvio, volta-se contra o pensador.

Aí, constatamos que pensar dói.

E dói, sobretudo, pelas conclusões importantes e inexoráveis a que chegamos sobre os nossos limites como espécie humana - que pode muito, mas não pode tudo.

A Humanidade criou soluções geniais para competir com os bichos; competir com outros humanos; e até combater extraterrestres. Mas, na sua competição pessoal, consigo próprio no ato de pensar, sempre sai perdendo pois ninguém melhor que nós para saber os nossos pontos fracos; então, no embate da guerra interior, sempre saímos derrotados e somos abatidos.

Pensar não ocupa espaço, mas pode levar a conclusões sombrias, atormentadoras, sobre os nossos maiores dilemas.

O maior de todos, sem dúvida, é a morte.

Para pais de pessoas com deficiências, isso se potencializa a proporções inimagináveis.

"O que será deles quando eu morrer?", é a principal pergunta que ouvimos de familiares de pessoas com deficiências intelectuais, físicas, sensoriais e comorbidades; idosos e vulneráveis que dependem de nós.

Mais abaixo, comentarei as conclusões a que cheguei nesses seis meses.

Pensar não ocupa espaço, mas antigamente, pais e professores educavam os jovens com castigos físicos e psicológicos, um deles era: - "Vá para o quarto escuro, 'pensar' no que você fez!" Ou, na escola: "Fique no canto da sala, de frente para o quadro negro, de castigo, por 5 minutos, 'pensando' no erro que você cometeu!"

Por isso, pensar, às vezes, nos leva à ideia de que estamos de castigo.

E, num certo sentido, estamos.

Nesses seis meses de confinamento compulsório, em prisão domiciliar, devido à pandemia, pudemos constatar a crueldade de alguns pensamentos.

Todos, indistintamente, tomamos contato com o medo e a sensação de estarmos sendo castigados.

Ficamos sem saída, e quando não há para onde fugir, somos sinceros. Os pensamentos são mais verdadeiros.

E, nessa situação limite, cheguei a duas conclusões satisfatórias sobre a morte: uma boa e outra ruim.

A ruim é que, ao nos preocupamos com a "falta que faremos às pessoas que dependem de nós, quando nos formos" (frase eufemística para não falar "morrer"); constatamos que depois de 6 meses, poucos sentirão a nossa falta, alguns nem perceberão que morremos, outros darão até "graças a Deus!".

A boa constatação é que podemos morrer tranquilos, porque surgirão outras pessoas boas para nos substituir  (até mais competentes!) para cuidar de tudo. Na grande maioria dos casos, isso é um fato e um consolo. Não somos insubstituíveis, absolutamente. Ninguém o é.

A humanidade teve grandiosos homens e grandiosas mulheres que siquer lembramos que existiram.

A Natureza cumpre o seu papel de ir em frente, independente de nós. Assim como a natureza do vírus vai cumprindo o seu fundamento científico de mediocrizar todas as opiniões medíocres daqueles que tentaram minimizá-lo desacreditando o poder a ciência. Acreditar nela é o que nos resta.

 

 

A Semana da Pessoa com Deficiência se inicia hoje, 21 de agosto de 2020. Nunca tivemos muito a comemorar, e sempre foi um certo contrassenso fazê-lo. Mas, é importante. É importante ter uma semana nossa para lembrar que não somos invisíveis, mesmo nesses tempos em que o luto permeia a existência humana. É importante lembrar que a nossa luta continua. E continuará com o otimismo de quem não desiste. Continuará junto dos que amamos e daqueles que acreditam que pensar não ocupa espaço, mas pode ajudar a melhorar a vida dos que não conseguem pensar, pois não têm intelecção, não têm cognição nem raciocínio, por causa dos seus distúrbios mentais. Pensemos por eles.

Sem dúvida, a luta nunca terminará. Só estamos num momento de trégua em respeito aos que resistem e aos que não resistiram*.

 

*Guto Maia - José Augusto Maia Baptista

Gestor educacional

 


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