Dilemas e paradoxos da inteligência coletiva 

Guto Maia*

28/08/20 (Read in English) 

(diante do imponderável, imprevisível, imensurável)

O objetivo desse texto é traçar um paralelo comparativo entre o caos estrutural e anomia atuais causados pela Covid-19, em 2020; e a convulsão de valores ético-político-morais-sociais que aconteceu na transição da Era Moderna - marcada pela Revolução Industrial de 1760, e pelas revoluções Francesa e Americana -, para a Era Contemporânea (XIX).

 

Esta reflexão é um exercício dialético sobre como podemos comparar esses dois momentos históricos, referenciados analiticamente pelo viés das ideias positivistas comteanas e durkheimianas, nos primórdios da Sociologia como Ciência.

 

Podemos imaginar que a sociedade produz seus valores através de pesos e contrapesos geralmente gerenciados por uma elite social dominante, que apenas cede espaço quando não consegue mais manter os padrões de privilégios que as beneficia;

 

Historicamente, a moral no Brasil foi construída por famílias instruídas que normatizaram a exploração dos mais pobres e menos qualificados profissionalmente, mantendo resquícios do colonialismo e da escravidão que geram tanto preconceito em todos grupos sociais. Até bem pouco tempo (30, 40 anos atrás), ainda haviam locais no Brasil e no mundo que não permitiam a entrada de pretos, e ter empregados domésticos com "filhos de criação", também sempre foi um ato socialmente aceito pelas elites.

 

Às mulheres, não era incentivado o estudo depois de adultas. A discussão de gênero era um tabú, assim como todos os assuntos que atentassem aos valores e costumes de cada época. Sempre convivemos com a demagogia e hipocrisia social, o que gera a dissimulação e o cinismo instituído. Há uma moral oficial e outra sub-reptícia, com padrões absolutamente dúbios para as crianças, quando estas começam a entender as incoerências sociais primárias na sua criação, como, por exemplo, adultos fumarem e dizerem para a criança nunca fazê-lo, porque faz mal (!)

 

As religiões tentaram o monopólio da moral, mas como cúmplices do poder colonizador acabaram banalizando a própria moral, tendo pouca ascensão entre os mais jovens. Tivemos tempos obscuros de coronelismos e autoritarismo militar. Esse caldo resultou numa classe política corrupta, que pouco pensa coletivamente, e a moral torna-se relativa a cada meio social, sendo inclusive associada à permissividade de uma hipocrisia instituída.

 

O conceito de Deus foi banalizado pelo seu uso desonesto por parte das religiões e seitas. "Jesus Cristo", nem se fala! O jogo do poder do dinheiro em nome da fé desses segmentos escancarou o cinismo e criou um monte de descrentes, desalentados e desiludidos.

 

Em geral "valores" e "moral"  são associados ao tradicional/conservador. Mas, talvez isto seja uma verdade absoluta. Valor e moral podem ser reconstruídos e revisados permanentemente em contraponto aos vícios da educação autoritária a que muitos dos nossos pais e avós foram submetidos, com a falsa ideia da disciplina e ordem social. Somos todos vítimas dessa educação distorcida que se perpetua por décadas.

 

Podemos acreditar que a moral se forma sobretudo na ética, na discussão dos valores, nos princípios solidários e na generosidade humana aplicada, baseados no diálogo aberto, na aceitação do contraditório e no respeito às ideias divergentes. Nesse sentido, a diversidade valorizada eleva o conceito de moral vigente. Daí, sairão os líderes gestores públicos, a partir do equilíbrio do jogo político. Digamos que estes são os desígnios do bom senso comum para todos que acreditam que, ideologicamente, o melhor para organizar o convívio social sejam os combinados do sistema democrático.

 

Médicos, enfermeiros, bons jornalistas, intelectuais e influenciadores respeitosos à Ciências, têm-se demonstrado exemplos práticos de dignidade, durante a atual pandemia que nos agonia.

 

Sociedade com padrão moral forte, é, de fato, o segredo do sucesso de uma sociedade? Sem dúvida é. Quando olhamos para países onde os seus gestores têm real apreço e espírito de representação dos seus cidadãos, como se fossem todos seus próprios filhos, os resultados são melhores diante das intempéries, por mais graves que sejam, e a sociedade cresce como um corpo coeso nessa lição, e supera mais rapidamente qualquer sofrimento. Uns cuidam dos outros. Isso seria, talvez, o espírito mais nobre para uma a sociedade ideal.

 

Sociologia de Durkheim, e os positivistas.Sociologia de Durkheim, e os positivistas.Faz-se necessário compreender cientificamente o contexto histórico que propiciou que fossem gestadas as primeiras teorias da nova ciência que surgia, a Sociologia, na transição da Idade Moderna e a Contemporânea; metodizada pela primeira vez por August Comte com inspiração no positivismo, que aceitava apenas o realvisível e palpável. Suas teorias difundidas por seus alunos encontravam forte resistência dos intelectuais conservadores pré-iluministas, que defendiam a religião e os militares para melhor disciplina da sociedade.

 

Émile Durkheim, um dos discípulos de Comte, foi o que mais se destacou, aperfeiçoando as ideias do mestre, criando teorias importantes como a Consciência Coletiva e IndividualSolidariedade Orgânica e MecânicaFato Social; e apresentando o conceito de Anomia, encontrado em suas principais obras: “Suicídio” (1897) e “Da Divisão Social do Trabalho” (1893).

 

De acordo com a concepção de Durkheim, a anomia social acontece com base na ausência de normas sociais e morais que sirvam de “guia” para a sociedade. Podemos considerar que, em certa medida, estamos nessa linha tênue de dubiedade de valores morais contraditórios e refratários.

 

Assistimos hoje a uma clara ruptura social. Nota-se que a pandemia atual que nos assola a partir de 2020, veio desestruturar de forma inimaginável os valores ético-políticosmorais, infraestruturais e financeiros do planeta todo, causando medo, matando sonhos, adiando projetos, exacerbando as diferenças sociais, étnico-culturais, raciais, de classe, gênero, aflorando relações rancorosas, cheias de ódio, preconceitos, contradições e paradoxos; chegando a um momento limite em que, inexoravelmente, novas possibilidade de relação e convivência surgirão apontando para uma nova ordem social, a ser construída necessariamente com muito diálogo, debates e negociação conflituosa.

 

Ao traçarmos um paralelo comparativo, assim como na transição para a Era Moderna para a Contemporânea (Séc. XIX), vivemos hoje uma explosão polarizada entre os que confiam na ciência e os que a negam veementemente, por incrível que pareça, demonstrando total falta de comprometimento - e até mesmo boicotando os imprescindíveis e inevitáveis progressos científicos.

 

Surpreendentemente, uma imensa quantidade de indivíduos deixa claro o seu desprezo pela inteligência coletiva ao propor revisionismos históricos tendenciosos, demonstrando absoluta falta de solidariedade e empatia humanas, num momento tão conturbado da história da humanidade, especialmente para o Brasil, que hoje (09 de agosto de 2020), ainda está muito longe de alcançar o controle de uma crise sanitária grave que assola o mundo, chegando a 100 mil mortos pela Covid-19, em dados oficiais,

 

É urgente no Brasil um debate de ideias ético-políticas que envolvam cidadãos de todas áreas que confiam na Ciência, para apoio aos jovens cientistas pesquisadores, que serão o suporte para que a gestão pública tome as melhores decisões a respeito da saúde física, mental e financeira da nossa população.

 

Segundo as estimativas, a população mundial atingirá 9,7 bilhões de habitantes em 2050. O Brasil alcançara 97 milhões de idosos nos próximos 30 anos, e terá uma população total de 238 milhões. Pessoas com deficiências físicas intelectuais e sensoriais estarão nesse espectro de mais de 60% do total. Ou seja, mais da metade da nossa população será composta por indivíduos que necessitarão de alguma assistência especializada e cuidados profissionais.

 

Essa consciência desse futuro próximo, pode abrir uma discussão importante sobre a nossa responsabilidade de contribuir na formação dos novos gestores das políticas públicas realmente comprometidos com valores sólidos de caráter, inspirados na moral social elevada e na solidariedade humana. A crença nessa utopia, pode nos ajudar a superar intelectualmente esse momento de grande dor coletiva pela qual passamos. Podemos contribuir, assim como fizeram os precursores da Sociologia, qualificando esse debate a partir do aprendizado que esse momento de sofrimento nos dá a todos indistintamente.

 

E, nos permitirmos sonhar com uma sociedade mais inteligente e solidária.

 

 

*Guto Maia - José Augusto Maia Baptista

Gestor educacional

 


 

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